Quinta Inquietante: discussão sobre “A (In)visibilidade do Trabalho nas Comunidades Tradicionais” foi ampliada em edição de abertura do evento
- aatrba
- 12 de jun.
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Produzida pelas estudantes do Programa de Estágio da AATR, a ação aconteceu na faculdade de Direito da UFBA
A primeira edição de 2025 da Quintas Inquietantes foi iniciada no dia 05 de junho, na Sala da Congregação, na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Construída pela equipe do Programa de Estágio da AATR, a programação teve como tema “(In)visibilidade do Trabalho nas Comunidades Tradicionais: Desafios, diferenças e Pertencimento” e reuniu entre as/os palestrantes Felipe Estrela, professor de direito associado da AATR, Keylane de Araújo Oliveira, estudante da Escola Família Agrícola (EFA) de Brotas de Macaúbas, e Luiz Kaimbé, agricultor indígena do Povo Kaimbé e membro da comunidade de fecho de pasto de Bom Jardim.
Com trajetória diversificada em suas atuações, o grupo de convidados trouxe em comum apontamentos que reconhecem a relevância do trabalho para além da fonte de renda nas comunidades tradicionais. Mais que um evento de debates, o espaço foi marcado pela formação política e pelo anseio coletivo por justiça nos territórios.
"O futuro será ancestral, ou ele não será, porque talvez a humanidade não tenha tempo” Felipe Estrela
O momento de análise de conjuntura foi conduzido pelo professor de direito e associado da AATR, Felipe Estrela, que apresentou um panorama das questões agrárias e reflexões sobre as possibilidades de futuro. “O Brasil é um país permanentemente agrário, mas o tema do trabalho rural ainda é visto como coisa do atraso. Porém, é essencial para se pensar a continuidade do país. Acho que se a gente pensar, por exemplo, as experiências de Ailton Krenak e Davi Kopenawa, os fundadores do pensamento nacional indígena, cada vez mais tenho essa percepção de que o futuro não será algoritmo. O futuro será ancestral, ou ele não será, porque talvez a humanidade não tenha tempo”, considerou.
Do local para o global
Por sua vez, Keilane e Luiz trouxeram as perspectivas e olhares de quem pertence a comunidades e povos tradicionais que carregam toda a pluralidade de realidades e complexidades para preservarem a cultura e a permanência em seus territórios de origem. “Na minha região tem torres eólicas, emprendimentos de energia solar e mineração. Todos eles causam impacto em nosso viver”, compartilhou a estudante moradora de Brotas de Macaúbas, município da região da Chapada Diamantina, rico em minérios e cercado de empreendimentos de energias renováveis interessados em ampliar a atuação.
Em sua fala inicial, Luiz Kaimbé contextualizou a sua vivência como pertencente a duas comunidades tradicionais: indígena e fecho de pasto. “A busca é justamente entender o que podemos aprender e contribuir em comunidade. É um desafio, mas passa pelo entendimento de que somos essenciais para a manutenção dos nossos territórios, do ponto vista ambiental e social”. Ele ainda deu continuidade ao tema, explicando que as relações pessoais e familiares atravessam todas as outras e são marcadores de pertencimento e continuidade: "A solidariedade, o trabalho coletivo, a terra e território gestados de forma coletiva em prol do desenvolvimento econômico das famílias, são características principais da existência dessas comunidades”, disse.
Indígena do Povo Kaimbé e integrante da comunidade fecheira de Bom Jardim, no município de Canudos, Luiz aponta que os povos e comunidades tradicionais vivenciam na prática, desde sempre, o que chamam de sustentabilidade, ao conviverem em harmonia em ecossistemas conservados. “Se tem Caatinga e Cerrado em pé, tem água, tem biodiversidade e tem oxigênio. Por isso, garantir a permanência dessas famílias e comunidades em seus territórios, é garantir a permanência do planeta como um todo. Desde o rural ao urbano, se faz necessário ter essa compreensão”, afirmou.
Filha de agricultores familiares, Keilane reconhece que as comunidades tradicionais sempre desenvolveram formas de trabalho com baixo impacto para a degradação ambiental, como extrativismo e agroecologia artesanais. “A gente procura trabalhar junto com a natureza, ao invés de ir contra ela, pois não tem nada que a gente utilize que não se origine na natureza, nem uma das nossas tecnologias, nem uma das nossas vestes, nada. A gente procura [como técnica agrícola], disseminar esse conhecimento para que cada vez menos a gente veja notícias de desastres que a humanidade causou”, refletiu.
Participação
O público participou ativamente do debate e teve oportunidade de levantar questões e compartilhar experiências relacionadas ao tema envolvendo trabalho e pertencimento. Os estudantes presentes ampliaram a discussão, lançando questões e experiências relacionadas ao tema, como a intervenção de Rafael Bitencourt, integrante da Clínica de Direito do Trabalho da Faculdade de Direito. Para ele há um silenciamento estratégico das demandas de determinados grupos, como no caso das/es trabalhadoras/es domésticas/os e do campo. “Os trabalhadores de comunidades têm outra relação com a natureza, outra relação com a coletividade e com o lucro”, apontou.
A Quinta Inquietante é uma iniciativa desenvolvida pelo programa de estágio da AATR que busca engajar a juventude, estudantes de direito e interessados sobre os desafios da assessoria jurídica popular e temas ligados à dinâmica das lutas populares como direitos humanos, fundiários e criminalização dos movimentos sociais, entre outros.

Fotos e texto: Ascom/AATR










































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