Dados
da OIT colocam a Bahia em 2º lugar em número de pessoas
irregulares, localizadas em fazendas na região oeste
MIRIAM
HERMES
BARREIRAS (SUCURSAL REGIONAL OESTE)
A exploração de mão-de-obra tem uma relação
direta com a miséria dos homens e mulheres que vivem em
bolsões de pobreza e necessitam, prementemente, matar
a fome. Para eles, carteira assinada e condições
dignas de moradia é um luxo, ausentes, talvez, até
em seus sonhos. Entretanto, ações conjuntas já
têm obtido resultados e, este ano, 50% dos cerca de 30 mil
trabalhadores temporários do cerrado baiano tiveram a carteira
assinada e reconhecidos os seus direitos.
De
hoje até domingo, a II Conferência sobre Trabalho
Escravo e Meio Ambiente no Estado da Bahia e a XXII Semana da
Terra Eugênio Lyra vão discutir as relações
trabalhistas e dos seres humanos com o seu habitat, no Solar das
Mangueiras, em Barreiras.
Eugênio
Lyra era advogado ligado a questões de terra e agricultores,
assasinado a mando, por pistoleiros na principal praça
de Santa Maria da Vitória, no início dos anos 70,
na véspera de viajar para Salvador, onde iria depor numa
CPI da Comissão de Grilagem da Assembléia Legislativa
da Bahia.
As
atividades são promovidas pela Associação
dos Advogados de Trabalhadores Rurais AATR/Bahia; Comissão
Pastoral da Terra e Central Única dos Trabalhadores do
Oeste da Bahia. O Centro de Direitos Humanos de Barreiras, a Agência
10envolvimento e a Amina também participam da organização
do evento que culmina com a discussão das estratégias
de atuação na prevenção e combate
do trabalho escravo.
DEGRADANTE
Para a engenheira agrônoma, Edite Souza, da ONG 10envolvimento,
o modelo econômico regional e as distâncias
entre as fazendas e as cidades favorecem o sistema de trabalho
degradante sob condições de pouca dignidade.
Ela ressalta que as secas prolongadas nas regiões dos vales
também têm contribuído para engrossar as fileiras
de trabalhadores que se sujeitam a qualquer coisa para ter o seu
sustento e da família.
Segundo
a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a
Bahia está em segundo lugar em número de pessoas,
em situação irregular, localizadas em fazendas pela
fiscalização do Ministério Público
que no ano passado regularizou 1.089 trabalhadores, todos em municípios
do oeste. Este ano, até o mês de agosto, 118 trabalhadores
foram localizados na região, considerando que, em 2004,
as maiores descobertas aconteceram até este mês.
A estimativa é que, pelo menos, 30 mil pessoas atuem em
trabalhos temporários nas fazendas do cerrado baiano.
Situação
é pior nas carvoarias
Na
opinião do auditor fiscal do trabalho, Luiz Antônio
Barbosa, até o ano passado, o oeste estava abandonado
pois as ações fiscais eram mínimas. O trabalhador
volante (temporário) não era considerado empregado
da fazenda e o ônus desta mão-de-obra, no entender
dos produtores, era do agenciador, chamado de gato, que na prática
mantinha o contato com os trabalhadores, desde sua contratação
até o pagamento final, diz Luiz Antônio.
Desde
que a fiscalização foi intensificada, tanto com
as forças-tarefa, compostas por representantes
do Ministério Público, da Delegacia Regional do
Trabalho (DRT) e da Polícia Federal; tanto pelos auditores
fiscais do trabalho, da DRT da Bahia, que estão atuando
em todo o Estado, tem havido uma resposta positiva por parte dos
empresários rurais.
CONSCIENTIZAÇÃO
Para conscientizar a classe sobre a necessidade de se adequar
às leis trabalhistas foram realizados vários encontros,
com a participação de integrantes da Associação
dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), que congrega cerca
de 95% dos produtores do cerrado baiano; dos sindicatos de produtores
(do município de Luís Eduardo Magalhães)
e de trabalhadores (de Barreiras), e a Subdelegacia da DRT de
Barreiras, dentre outros.
Segundo
Luiz Antônio, os mais importantes foram os debates com cafeicultores
e cotonicultores, em janeiro e abril deste ano, classificados
como os dois setores que mais empregam mão-de-obra temporária.
Como resultado, este ano, já foram registradas 7.500 pessoas
que trabalharam na capina do algodão e mais de 8 mil na
colheita do café, que está terminando. Até
o ano passado este número era ínfimo.
Ainda
de acordo com os fiscais do trabalho, cerca de 90% da demanda
de reclamações trabalhistas no oeste estão
concentradas na zona rural, apesar de reconhecerem que nas cidades
também há exploração trabalhista em
grande escala. Na região oeste a situação
mais gritante, afirmam, está nas empresas de carvoaria,
que estão trazendo trabalhadores de Minas Gerais.
Serviço
Denúncias
de trabalho degradante na Bahia
- Pastoral da Terra (71) 321 4672
- DRT (71) 329 9402
- SOS Trabalho Escravo 0800-710990
A
Tarde - 04/09/2004 - Trabalhador
Oeste
debate estratégias contra trabalho escravo
MIRIAM HERMES
BARREIRAS (SUCURSAL REGIONAL OESTE)
O ponto alto da conferência que discute o trabalho escravo
e o meio ambiente, aberta ontem em Barreiras, será o debate
sobre as estratégias políticas para enfrentamento
da exploração trabalhista na região oeste
da Bahia, previsto para hoje à tarde.
É
contraditório que, numa região que tem tanta riqueza
anunciada com a produção agrícola, ainda
existam pessoas sem os mínimos direitos respeitados,
disse o presidente da CUT/oeste, José Santana. Para ele,
é urgente que, além das denúncias,
sejam criadas políticas alternativas amplas para que os
trabalhadores não tenham só estas opções
de trabalho.
O
presidente da Associação dos Advogados de Trabalhadores
Rurais (AATR/BA), Cláudio Rocha, destaca que a sociedade
em geral ainda não percebe a gravidade deste problema,
apesar de se chocar com a divulgação de fotos e
depoimentos. Ele ressalta que políticas públicas
de inclusão podem mudar o quadro, uma vez que a situação
de miséria das pessoas as empurra para atividades degradantes.
IDENIZAÇÕES
Em duas operações de fiscalização
móvel realizadas este ano na Bahia foram registrados 160
trabalhadores, libertadas 82 pessoas e a soma das indenizações
foi de R$ 212.974,52. No ano passado os números foram bem
maiores, somando 1.089 trabalhadores libertados conforme dados
da OIT (Organização Internacional do Trabalho).
Para
a coordenadora do Centro de Direitos Humanos Francisco Joaquim
de Lima, de Barreiras, Maria Almeida, o rico potencial deve ser
aproveitado para dignificar a vida dos homens e mulheres da região.
Que o desenvolvimento econômico seja sustentável
e inclusivo, disse.
A
palestra O agronegócio e seus impactos no meio ambiente
e nas relações de trabalho do professor José
Luiz da Rocha, abriu a conferência que será encerrada
amanhã (DOMINGO) com uma reunião de avaliação
das entidades promotoras do evento. Além de Barreiras e
Salvador, de onde veio uma caravana, para a conferência
e para a XXII Semana da Terra Eugênio Lyra, participam representantes
de sindicatos rurais e entidades envolvidas com os direitos humanos
de vários municípios da região.
A
Tarde - 04/09/2004 - Trabalhador
Só
Reforma Agrária soluciona escravidão
Segundo
a Igreja Católica, a cada ano 25 mil pessoas sofrem com
trabalhos degradantes no Brasil
MIRIAM
HERMES
Barreiras
(Sucursal Regional Oeste) - A única forma de combatermos
o trabalho escravo e a destruição ambiental é
a realização de uma reforma agrária radical,
adotada como política pública de democratização
do acesso à terra como bem natural e de função
social. Esta foi a conclusão que entidades e movimentos
sociais chegaram ao participar da XXII Semana da Terra Eugênio
Lyra e da 2ª Conferência Sobre Trabalho Escravo e Meio
Ambiente no Estado da Bahia, encerrada ontem no Solar das Mangueiras,
em Barreiras.
É
meta priorizar a agricultura familiar agroecológica, revertendo
o êxodo rural e esvaziando os bolsões de pobreza
criados em torno das grandes cidades, que engrossam os números
de indigência, que, por sua vez, são fornecedores
de mão-de-obra facilmente explorável. As comissões
regionais e a comissão estadual, formadas no encontro,
têm a incumbência de instrumentalizar a luta
da sociedade civil organizada, para eliminar a atual forma de
exploração que afronta os direitos humanos, humilha
e retira a dignidade do trabalhador, diz o documento final.
A
região Oeste da Bahia, considerada uma das últimas
fronteiras agrícolas do mundo, foi responsável nos
últimos anos por um crescimento econômico de 245,6%,
enquanto a pobreza diminuiu 2,6% no mesmo período. Os dados,
divulgados recentemente e que tiveram grande repercussão
em todo o Estado, também compõem a Carta de Barreiras
argumentando sobre a necessidade de mudança no modelo de
ocupação.
Vale
ressaltar que o problema já foi discutido entre a classe
produtora do Cerrado, que propõe a integração
produtiva entre o Vale e os Cerrados no Programa elaborado para
a adoção em grande escala do Plantio Direto na Palha.
(Manejo indicado para melhorar o desempenho do solo agrícola,
minimizando o efeito negativo no meio ambiente da derrubada da
mata nativa para a produção de alimentos).
REGULARIZAÇÃO
- A Bahia, que está em segundo lugar no Brasil como Estado
com maior número de trabalhadores localizados pelo grupo
móvel de fiscalização trabalhista, conforme
a OIT (Organização Internacional do Trabalho), no
ano passado, regularizou 1.089 trabalhadores em municípios
do Oeste. De acordo com a Subdelegacia de Barreiras da Delegacia
Regional do Trabalho (DRT), até agosto deste ano, 118 trabalhadores
foram resgatados, demonstrando que o número está
decrescendo.
Já
o total de trabalhadores temporários registrados passou
de insignificante para 7.500 na capina do algodão e 8.000
na colheita do café. A estimativa é que todos os
anos sejam criados cerca de 30 mil empregos temporários
nas fazendas do cerrado. Porém, a conta da Comissão
Pastoral da Terra, da Igreja Católica (CPT), também
presente ao evento, é que para cada trabalhador registrado,
existem cinco sem registro.
Meta
é impedir degradação ambiental
Não
só a miséria, refletida na abundância de oferta
de mão-de-obra barata, foi tema de debate. Também
foi discutida a degradação ambiental, tanto em grandes
e pequenas propriedades rurais, quanto em aglomerados urbanos,
onde em grande parte não há saneamento básico
e cuidados elementares com a destinação dos resíduos
sólidos, dentre outras agressões.
Entre
outras prioridades apontadas nas discussões temáticas,
são alvos das comissões a criação
imediata do Comitê da Bacia do Rio Grande e a luta contra
a institucionalização da reserva legal em
condomínio na região do Oeste, nas fronteiras
da Bahia com o Piauí e Minas Gerais, considerada nefasta
para todo ecossistema, pois permite a derrubada de 100% da mata
nativa em determinadas bacias.
Ações
de resultado foram cobradas pelas pessoas reunidas no evento,
que pretendem responsabilizar judicialmente os órgãos
públicos por suas omissões institucionais
e fortalecer projeto de lei que prevê a desapropriação
de áreas com fundamentos na redução
de trabalhadores a condições análogas a escravo.
LUTA
NACIONAL - O Coordenador da Campanha Nacional de Prevenção
e Combate ao Trabalho Escravo, encabeçada pela CPT, Frei
Xavier Plassat, disse que nesta cruzada é fundamental identificar
os focos, cobrar do Governo a punição enérgica
dos infratores e promover alternativas estruturais de vida decente
para os trabalhadores. No Brasil, a CPT estima que, a cada
ano, 25 mil pessoas atuam em trabalhos degradantes e análogos
à escravidão, não são casos
acidentais, os revelados pela mídia, destacou.
Ao
enfatizar que a Bahia apenas está começando esta
empreitada, Frei Xavier afirma que não só as entidades
que comumente se envolvem na briga pela dignidade, mas toda
a sociedade deve tomar posição e pressionar, sem
se acomodar, pois as pessoas oprimidas precisam de ajuda para
conquistar os seus direitos.
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