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Eugênio
Lyra
nasceu
no dia 08 de janeiro de 1947. Começou a freqüentar
uma escola particular com apenas cinco anos e aos sete, ingressou
numa escola pública. Gostava muito de ler e lia tudo
que via.
Não gostava de brincar, não sabia jogar gude,
nem bola e nem outros brinquedos que as crianças gostam.
Sempre foi muito estudioso, esperto, prestativo, principalmente
com as pessoas mais humildes e velhas. Era muito preocupado
comigo, com os irmãos e com as pessoas do seu relacionamento.
Isto desde pequeno.
Aos onze anos, ingressou no Colégio Maristas. Sempre
foi um aluno muito esforçado e de ótimo comportamento.
Aos quinze, concluiu a 4º série do ginásio
e mudou-se para Salvador, onde deu continuidade aos estudos.
Morava em uma pensão, no quarto dos fundos, local em
que passou horas amargas e grandes sacrifícios para
alcançar o que ele mais desejava.
Fez o científico no Colégio Central, onde conheceu
Lúcia, sua colega e amiga. Juntos fizeram o vestibular,
passaram e continuaram os estudos na Faculdade de Direito
da Universidade Federal da Bahia. Desta amizade nasceu o amor.
Ainda estudante, aos dezoito anos, lançou seu primeiro
livro, intitulado Fogos Fátuos. Em 1968, aos
vinte e um anos, lançou Abismos, livro, assim
como o primeiro, de poesias.
Em 1969, quando estava estagiando, a primeira causa foi de
uma humilde senhora que estava para perder a casa. Eugênio
fez todo o possível para que ela permanecesse no imóvel.
Formou-se em 1970, no dia 08 de dezembro. Um ano depois, casou-se
com Lúcia e juntos, na mesma profissão, instalaram
um escritório na Rua Chile, em Salvador, onde atenderam
por algum tempo.
Sendo chamado para trabalhar em diversos sindicatos, viajava
para atender em várias cidades do interior baiano tais
como: Feira de Santana, Riachão do Jacuípe,
Cachoeira, Santo Antônio de Jesus, dentre outras.
Em 1976, no dia 05 de abril, foi transferido para Santa Maria
da Vitória, onde fixou residência, atendendo
aos trabalhadores e lutando pela devolução das
terras dos camponeses que tinham sido tomadas pelos grileiros.
Ele se sentia bem em lidar com aquela gente sofredora, que
precisava de alguém humano que fizesse algo por eles:
recebia a todos que o procuravam e atendia com carinho e atenção
aquela gente humilde. Buscando sempre ajudá-los, sentia-se
feliz ao lado deles.
Um dia foi convidado por um grileiro que lhe ofereceu uma
boa quantia para que ficasse ao lado dele, contra os lavradores.
Ele agradeceu dizendo que ficaria com os lavradores, que precisavam
dele. Deste dia em diante, começaram as ameaças
e perseguições. Mesmo assim, ele não
acreditava que alguém tivesse coragem de lhe fazer
o mal.
Ele e Lúcia já estavam casados há seis
anos. Ela estava esperando um filho e estavam felizes. Mas
a felicidade durou pouco...
Eugênio vinha a Salvador para depor na CPI da grilagem.
Viria na sexta-feira, não sabendo que as autoridades
de lá (como o delegado de polícia e o regional,
que era na época Eymar Portugal Sena Gomes) estavam
aliadas aos malditos grileiros e haviam contratado o pistoleiro
Wilson Gusmão por Cr$ 40.000,00 (quarenta mil cruzeiros)
para executar o bárbaro crime, antes da vinda dele
para Salvador.
Nesta época, Lúcia estava no quinto mês
de gestação e como vivia assustada não
deixava que ele saísse sozinho. Andavam sempre juntos.
E foi então que na quinta-feira, 22 de setembro de
1977, na porta da barbearia de Santa Maria da Vitória,
aconteceu a triste tragédia: Eugênio, aos 30
anos, fora vitimado, fatalmente, com uma bala na testa, caindo
aos pés de Lúcia, que ainda correu atrás
do pistoleiro.
E assim fizeram parar a vida do jovem advogado que lutou e
deu seu sangue pelos lavradores, deixando, além da
família, uma criança inocente, a maior vítima
deste bárbaro crime: a pequenina Mariana.
Aqui termina, com um trágico fim, a história
de uma criança boa, inteligente e jovem; que não
teve infância, nem juventude: seu mundo foi os livros,
sua família e a luta ao lado dos trabalhadores.
É com muita amargura e com o coração
traspassado que narrei a vida do meu inesquecível filho
EUGÊNIO LYRA.
Dona Maria Lyra, 1981
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