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São Francisco: rio da integração
nacional?
O
Ministério Público estadual no embate
Créditos
Notícias
da AATR
Boletim
Informativo da Associação de Advogados de Trabalhadores
Rurais
no Estado da Bahia Janeiro de 2005 - Edição
Especial
O
Programa de Meio Ambiente e Recursos Hídricos da AATR pode
fazer um balanço e avaliação positivos de sua
atuação no ano de 2004. Participando do Fórum
Permanente em Defesa do São Francisco, protagonizou vitórias
frente aos atropelos do Governo Federal na quimera que envolve o
Projeto de Transposição do Rio São Francisco.
Neste projeto foi possível visualizar o poder da guerrilha
jurídica bem estruturada e responsável. Neste ano
pudemos ter uma pequena noção do que seria um Judiciário
comprometido, verdadeiramente, com os princípios constitucionais
que garantem a participação popular na gestão
daquilo que interfere diretamente na sua vida: o meio ambiente.
Ana
Cacilda Reis
Coordenadora do Programa de Meio Ambiente e Recursos Hídricos
da AATR-Ba.
Clarissa
e Kênia
Estagiárias
topo
São
Francisco: rio da integração nacional?
Somos
todos água
Todos somos rios
Em cada rio que morre
Morremos todos nós.
Roberto
Malvezzi
(Gogó)
Léo
Caldas/Titular
O Rio
São Francisco nosso Velho Chico - representa
60% das reservas de águas do nordeste brasileiro. Reconhecido,
desde o Brasil Império, como o rio da integração
nacional alimenta cinco estados (Minas Gerais, Bahia, Pernambuco,
Alagoas e Sergipe) e abrange, em sua bacia, 504 municípios,
ou 9% do total de municípios do País é
hoje alvo de grande ameaça: o Projeto de Transposição
do São Francisco (PTSF), agora chamado pelo governo Lula
de integração de bacias.
O projeto,
consolidado no imaginário das pessoas há bastante
tempo sua primeira sistematização data de 1847
na gestão de D. Pedro II -, vem sendo apresentado pelo Governo
como a redenção da seca de que é alvo a grande
região do semi-árido nordestino que compreende os
estados de PE, PB, RN e CE. No plano teórico, o PTSF tem
como pretenso objetivo abastecer 8 milhões de pessoas, 268
cidades e irrigar 300 mil hectares de terras, a um custo superior
à 6,5 bilhões de dólares (cerca de 20 bilhões
de reais !!), somente em obras de engenharia, que incluem estações
de bombeamento, túneis, canais, aquedutos e reservatórios,
beneficiando o lobby das empreiteiras, que têm grande interesse
no Projeto. Além deste alto custo, estima-se que a população
irá pagar cerca de R$0,11 pelo m³ de água, o
que eleva sobremaneira o seu valor, uma vez que paga-se hoje cerca
de R$0,023 por m³. Quem irá ter acesso à água
com este valor? Poderá a população carente
no nordeste arcar com este custo?
Conforme
observa-se, trata-se de um mega empreendimento que compromete sucessivos
mandatos presidenciais, bem como seus respectivos orçamentos,
além de sujeitar a nação a, mais uma vez, buscar
empréstimos que contribuirão com a, já mórbida,
obesidade característica de nossa dívida externa.
Isso sem contar com a potencialidade do lobby político que
acompanha obras megalômanas cujas repercussões e conseqüências
não nos é permitido acompanhar em razão da
opacidade particular de seus bastidores.
De
maneira oportunista, o governo federal tem superdimensionado o alcance
da transposição como instrumento de desenvolvimento
social. Partindo de um discurso apelativo que coloca aqueles contrários
à transposição como egoístas que
não querem ajudar os irmãos sedentos do nordeste setentrional
o governo manipula dados e foge de questões prementes: qual
o impacto social da obra? Como acabar com a sede do povo e dos animais
quando os atuais ribeirinhos passam por essas mesmas dificuldades?
Sem contar que as 22 milhões de pessoas que sofrem com as
secas periódicas estão espalhadas por mais de 900
mil quilômetros quadrados. Quantos canais seriam precisos
para atingi-las? O objetivo central, então, é a irrigação?
E se for, qual a sua viabilidade econômica?
O Projeto
tem sido imposto à sociedade, contrariando deliberação
da Conferência Nacional de Meio Ambiente (novembro de 2003)
que se posicionou contrária a qualquer tentativa de
transposição de águas dos rios São Francisco
e Tocantins e do Comitê da Bacia Hidrográfica
do São Francisco que deliberou, após longas
análises técnicas e consultas públicas, no
sentido de restringir as possibilidades de alocação
de águas para uso externo ao consumo humano e dessedentação
animal, comprovada a escassez e indisponibilidade hídrica
nas bacias receptoras. Esses fóruns, marcos da concretização
da gestão democrática, participativa e descentralizada,
com previsão legal na Lei 9.433/97, agora têm sua legitimidade
questionada pelo governo que, de forma oportunista, retira o caráter
vinculativo de tais decisões.
Os
atropelos do governo não páram por aí. O Ministério
da Integração, através da assessoria de imprensa
do Projeto São Francisco, distorce declarações
e mesmo decisões do Comitê da Bacia Hidrográfica
do São Francisco, além de manipular de forma grosseira
dados do projeto com o claro intuito de criar um senso de aceitação.
Extrapolando o limite do aceitável, o Governo Federal deu
início ao procedimento licitatório para realização
das obras do Projeto de Transposição, mesmo sem a
concessão da licença ambiental.
Outra
das tentativas autoritárias de aprovar, a qualquer custo,
o projeto de transposição do São Francisco,foi
a convocação, pela ministra de Estado do Meio Ambiente,
Marina Silva, de reunião extraordinária do Conselho
Nacional de Recursos Hídricos que colocava em pauta a deliberação,
em regime de urgência, sobre proposta de resolução
que pretende aprovar o projeto de transposição do
São Francisco. A concessão de uma liminar em Mandado
de Segurança impetrado pelo Ministério Público
Federal de Brasília, em articulação com as
entidades do FPDSF e com o Ministério Público da Bahia,
acabou por impedir a realização da primeira reunião
(30/11/2004).
Ressalte-se
que o FPDSF Fórum Permanente de Defesa do São
Francisco, do qual a AATR faz parte, suscitou conflito de uso das
águas da Bacia São Francisco frente ao CBHSF
Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco.
O CBHSF é, de acordo com o artigo 38, II, da Lei 9.433/97,
a instância competente para arbitrar tal conflito, sendo o
CNRH instância recursal. Tal procedimento, em respeito ao
princípio da gestão descentralizada e participativa,
que rege a Política Nacional de Recursos Hídricos
do Brasil, obsta a legalidade de qualquer encaminhamento do projeto
anterior à decisão final do conflito. Não obstante,
o governo insiste em colocar em pauta o projeto, atropelando instância
indispensáveis à sua aprovação.
O FPDSF
tem tomado várias medidas frente ao mais diversos órgãos
para impedir o prosseguimento do projeto. Além da suscitação
do conflito de uso das águas, foi interposta Cautelar preparatória
para Ação Civil Pública pela AATR, OAB/Ba,
GAMBÁ, Movimento Paulo Jackson, PANGEA e APEDEMA, cuja reiteração
foi acolhida liminarmente pelo juízo da 14ª Vara da
Justiça Federal, Seção Judiciária do
Estado da Bahia, suspendendo o licenciamento ambiental e respectivas
audiências públicas, além de qualquer procedimento
de contratação, através de licitação
ou qualquer outro meio, que pretenda implementar o projeto de transposição.
Essa medida liminar teve sua segurança suspensa pelo presidente
interino do Tribunal Federal Regional em razão de recurso
interposto pela União, o que acabou por viabilizar a realização
da audiência pública do Ceará, no dia 15/01/2005,
em Fortaleza. Ressalte-se que o resultado dessa consulta pública
para surpresa do governo, afinal tratava-se de um estado
receptor de águas foi, por maioria dos presentes,
contrário à transposição. As próximas
audiências públicas, caso o Judiciário se cale,
pois diversas medidas judiciais vêm sendo tomadas, acontecerão
em Natal-RN (18/01), Sousa-PE (20/01), Salgueiro-PE (22/01), Belo
Horizonte-MG (25/01), Salvador-BA (27/01), Aracaju-SE (31/01) e
Maceió-AL (02/02).
A realização
de um procedimento de licenciamento ambiental nos moldes deste do
PTSF EIA/RIMA viciados de erros e omissões, comprometendo
territórios indígenas e quilombolas, ausência
de licenças das prefeituras dos municípios envolvidos
etc constitui grave afronte aos princípios constitucionais
referentes à administração pública,
além de comprometer o direito fundamental à informação,
à medida que leva para a população, através
das audiências públicas, estudos superficiais e imprecisos.
Atente-se
para o fato de que o Projeto é alvo de conflito cuja decisão
está pendente, não atende aos critérios de
uso externo das águas do Rio São Francisco aprovados
pelo Comitê, não foi alvo de estudos conclusivos acerca
de seus impactos ambientais, e, nem mesmo, foi confrontado com o
recentemente aprovado Plano de Recursos Hídricos da sua respectiva
bacia.
Diante
de todo esse cenário de arbitrariedades e ilegalidades, é
importante ressaltar a atuação do Fórum Permanente
de Defesa do São Francisco. Criado em 1999, é formado
por diversas entidades - AATR, AEABA, Cáritas NE3, CPT, CREA-Ba,
IAMBA, GAMBÁ, Movimento Paulo Jackson, OAB/Ba, dentre outras.
Tem conseguido, através de intervenções em
diversos âmbitos (político e judicial), contribuir
na mobilização das comunidades diretamente atingidas,
aprofundar as reflexões e estudos técnicos que envolvem
o PTSF com a finalidade de barrar iniciativas do governo de concretizar
o projeto no formato em que se encontra hoje.
O grande
objetivo do PTSF é fortalecer a fruticultura irrigada para
exportação e carcinicultura, que degradam de forma
sistemática o meio ambiente. Não há um projeto
concreto de revitalização da bacia do São Francisco,
que já se encontra em franco estado de degradação
ambiental. Desta forma, entendemos que a mobilização
de sociedade civil é de grande importância para barrar
a tentativa de implementação deste projeto pelo Governo
Lula.
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O Ministério Público estadual no embate
A
determinação da promotora Luciana Khoury (associada
da AATR), coordenadora do Projeto de Revitalização
do São Francisco do Ministério Público do Estado
da Bahia, serve como exemplo de atuação no Judiciário.
Nesta condição, colaborando com o FPDSF Fórum
Permanente em Defesa do São Francisco, Luciana Khoury tem
contribuído de forma decisiva no processo que envolve o projeto
de transposição do rio São Francisco: "Mesmo
sendo o governo federal, não podemos admitir que um empreendimento
seja feito ao arrepio da lei".
AATR
- Qual o papel do Ministério Publico na defesa do meio ambiente?
LK
- Buscar garantir a efetividade das normas ambientais, compreendendo
que a qualidade de vida dos seres humanos encontra-se embutida no
conceito de meio ambiente ecologicamente equilibrado. É fundamental
para a ação do Ministério Publico socializar
as normas de tutela ambiental, promover a integração
dos agentes de fiscalização, buscando uma adequada
responsabilização dos agentes causadores de danos
ambientais, utilizando-se dos meios legais, como o Inquérito
Civil e a Ação Civil Pública.
AATR
- Como o Ministério Público da Bahia vem atuando na
garantia de gestão participativa dos recursos hídricos,
prevista na lei 9.433/97?
LK
- Atuando de forma integrada com a sociedade civil através
do Fórum Permanente de Defesa do São Francisco, com
reuniões periódicas para acompanhamento da implementação
de ações em prol da revitalização na
Bacia do São Francisco.
Acompanhamento
das ações do Comitê da Bacia Hidrográfica
do São Francisco. O Ministério Público vem
acompanhando, desde o início, a implementação
do Comitê e, inclusive, participando de suas plenárias.
Uma
outra ação em relação a isso é
a integração do Ministério Público da
Bahia com o Ministério Publico Federal na Bahia, sendo uma
grande parceria, bem com os Ministérios Públicos dos
demais Estados da Bacia do São Francisco.
Bem
assim, foram realizadas recomendações e ações
judiciais para garantir as diretrizes e princípios da Lei
9.433/97.
AATR
- Quais são os maiores obstáculos que o MP tem enfrentado
em sua atuação?
LK
- O Ministério Público, é bem verdade, possui
muitas atribuições, além de ser recente a importância
que tem sido dada ao papel do Ministério Público enquanto
defensor das questões ambientais e outras questões
difusas e coletivas. É a partir da Constituição
que vem se consolidando este papel, mas ainda há dificuldades
para compreender como dar conta de tanta responsabilidade que a
Constituição trouxe, como fazer isso da melhor forma
a garantir o princípio da eficiência. Então,
o maior desafio é a organização interna do
Ministério Publico para cumprir isso, seu papel, e também,
da própria sociedade de entender que essa é uma prioridade
institucional, deve ser uma prioridade institucional.
AATR
- Qual o horizonte o Ministério Público vislumbra
em relação ao projeto de transposição
do São Francisco e as ações do Governo?
LK
- Com a minha interpretação, após ter feito
vários estudos e congregado diversos atores e segmentos da
sociedade na análise do Estudo de Impacto Ambiental e da
proposta no Projeto de Integração de Bacias, ou de
Transposição, era de que esse projeto não pode
efetivamente ser realizado. As ações que devem acontecer
precisam ser inclusive de natureza judicial como o Ministério
Público, Federal, Estadual, junto com a AATR e outras entidades
da sociedade civil tem realizado. A ação principal
(Ação Civil Pública) questionando o mérito
da transposição, inclusive, é uma das medidas
necessárias que vamos adotar para que a gente possa, de alguma
forma, fazer com que o governo recue. Agora, a sociedade civil tem
sido importantíssima no processo, também se mobilizando,
demonstrando com seriedade as razões da ineficiência
do projeto para os fins que tem sido anunciados. Na verdade, o projeto
não atende aos fins que o governo declara como sua intenção.
Enfim. Esse projeto não pode acontecer, seja barrado por
um recurso do próprio governo ao perceber que esse é
um projeto ineficiente, não prioritário nem adequado,
sem nenhum investimento concreto em prol das populações
que seriam supostamente beneficiadas, além de ter grandes
impactos ambientais, então o governo poderia recuar por ele
mesmo; ou através de medidas judiciais do Ministério
Público e da sociedade civil. Realmente, que seja barrado
esse projeto, de uma vez por todas, acabando com essa idéia
de transposição! A minha idéia é de
que esse momento é crucial para, de uma vez por todas, matar
a idéia de Transposição.
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Créditos:
Textos:
Equipe de Estagiári@s da AATR Clarissa, Isac e Kênia
Contatos: Sítio www.aatr.org.br
E-mail: aatrba@terra.com.br
Tel/Fax: (71) 329-7393
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