|
Sangue Novo - E vamos a luta
Imunidade tributária: da
violência simbólica ao reconhecimento
Nota sobre os transgênicos
AATR e Pólo Sindical da região
do Sisal
Fórum Nacional do Trabalho:
consulta à sociedade ou meio legitimador da reforma?
Rapidinhas
Créditos
Notícias
da AATR
Boletim
Informativo da Associação de Advogados de Trabalhadores
Rurais
no Estado da Bahia Setembro de 2003 - Nº 17
Sangue
novo - E vamos a luta

E vamos a luta
Eu acredito é na rapaziada,
Que segue em frente e segura o rojão.
Eu ponho fé é na fé da moçada,
Que não foge da fera e enfrenta o leão.
Eu vou a luta com essa juventude,
Que não corre da raia a troco de nada.
Eu vou no bloco dessa mocidade,
Que não tá na saudade e constrói, a manhã
desejada.
Aquele que sabe o que é mesmo o couro da gente,
E segura a batida da vida, o ano inteiro.
Aquele que sabe o sufoco de um jogo tão duro,
E apesar dos pesares ainda se orgulha de ser brasileiro.
Aquele que sai da batalha e entra num botequim, pede uma cerva gelada,
E agita na mesa uma batucada.
Aquele que manda um pagode e sacode a poeira suada da luta
E faz a brincadeira, pois o resto é besteira,
Gonzaguinha
Salvador,
mês de Agosto, transcorrendo na sua normalidade, como de costume
os grandes empresários dos transportes urbanos junto com
a prefeitura arquitetam e instauram no município o novo valor
das passagens de ônibus: R$1,50, verdadeiro ataque a dignidade
da população marcada pelo desemprego, baixa renda
e condições precárias de vida. Como um despertar
de sono paralisante, onde os sonhos foram tolhidos, emerge de cada
canto de Salvador um foco de resistência e ação
direta contra o aumento de passagem. As ruas são tomadas
pela juventude soteropolitana; a mocidade negra, pobre e oprimida
das escolas públicas protestam contra a segunda oneração
do transporte público no ano de 2003; impedindo os ônibus
circularem a cidade.
Mas este fenômeno não pode ser mencionado sem a devida
contextualização da conjuntura sócio-política
do Brasil, país marcado pela exclusão social e distanciamento
da maioria da população dos serviços básicos
do Estado. Antes de tentarmos compreender a insurreição
pelo simples reajuste do transporte, devemos inseri-la na atual
conjuntura nacional, onde os indicadores sociais foram substituídos
pelos números econômicos. O vaivém das bolsas
de valores, o famigerado risco Brasil, a todo instante repetidos
pela mídia, agora determinam a boa ou má performance
do país.
Diante os 50 milhões de miseráveis, ouvimos - a depender
da boa vontade dos gananciosos banqueiros internacionais
o diagnóstico do país. Os gritos dos excluídos
são abandonados perante o nervosismo do mercado, rapidamente
curado com infalíveis remédios, nem que seja um superávit
criminoso que elimine os investimentos sociais ou aumento da taxa
de juros que destrói a economia nacional. Que em verdade,
só servem para enriquecer capitalistas inescrupulosos as
custas da miséria da maioria da população.
É a mutação capitalista: os sanguessugas do
setor produtivo são substituídos pelos parasitas monetaristas.
No final do século passado foi anunciado o fim da História,
a quebra das possibilidades de rupturas, o clamor ao ceticismo disfarçado
em fantasias que reinventava o postulado da ordem sob o domínio
do capital. Neste palco de incertezas e construção
simbólica da derrocada das utopias, da administração
da política em espaços estritamente institucionais
e da anestesia das potencialidades dos sujeitos coletivos, calcados
e silenciados pela crise dos velhos modelos de se fazer política.
A atual efervescência política abatida sobre o Brasil
prova justamente o contrário. Os movimentos sociais ocupam
as ruas exigindo profundas transformações sociais.
São os sem-terra, sem-teto, sem saúde, sem educação,
sem transporte! São aqueles que nunca tiveram vez na história
brasileira dizendo basta!, e, em Salvador, respondem
com irreverência e rebeldia aos desmandos dos poderosos; gerando
a vida na cidade dos excluídos, a que muitos chamam cidade
da alegria.
A elite brasileira - de tradição autoritária
- responde assustada, asseverando uma crise social instalada no
país, quando pela primeira vez na história brasileira
há pleno funcionamento da democracia - regime onde os conflitos
e as contradições são expostos e coexistem
sem a necessidade premente de serem eliminados -, pois, para estes
a democracia sempre foi o regime da lei e da ordem - para os pobres.
E que, acima de tudo, nunca admitiu a insubordinação
dos que deseja sempre subjugados.
São os baderneiros e arruaceiros. Os habitantes das senzalas,
favelas e prisões (no lugar dos verdadeiros criminosos da
história desse país: fraudadores dos imposto de renda,
submissos governantes de mentes colonizadas e ladrões do
dinheiro público, entre outros tantos). Esses que demonstram
não mais temerem se rebelar, pois as mudanças só
serão alcançadas pela transformação
radical da ordem social existente. Encerramos parafraseando Karl
Marx no final do Manifesto Comunista quando conclama os oprimidos
a rebelião: Nada temos a perder a não ser nossas
cadeias. Temos um mundo a ganhar
topo
Imunidade tributária: da violência
simbólica ao reconhecimento
Um
olhar sobre a cobrança de tributos aos terreiros de candomblé
em Salvador, Bahia, revela práticas estatais históricas
de afirmação de poder através da negação
de identidades. Mesmo sob a égide, ao menos aparente, do
Estado Democrático de Direito, os Terreiros de Candomblé
têm sido alvo de cobrança de IPTU, numa afronta a imunidade
tributária garantida na Constituição Federal
aos templos de qualquer culto. A grande maioria desses terreiros
está cadastrada no âmbito do poder público como
Terreiro, mesmo assim recebe anualmente o carnê para pagamento
do tributo.
A violação de direitos não se manifesta apenas
no fato de o poder estatal simplesmente ignorar a classificação
dos terreiros de candomblé enquanto sítios sagrados,
mas também no tratamento dispensado aos poucos pedidos de
reconhecimento de imunidade perante a Fazenda Municipal. A ofensa
se consolida na exigência de um conjunto de documentos e formalidades,
sem aparo legal, que além de não serem idôneos
a caracterizar se o local constitui ou não terreiro, caracterizam
obstáculos significativos para o avanço no reconhecimento
da imunidade tributária e, conseqüentemente, do patrimônio
cultural e simbólico de grupos étnicos e povos historicamente
alijados e perseguidos durante o processo colonizador.
A religiosidade de matriz africana sempre foi uma preocupação
das autoridades do regime escravista, que imaginavam formas de desmantelar
os vínculos dos negros com suas origens, atacando justamente
suas formas de relação com o divino, criminalizando
o candomblé, pasmem, até a primeira metade do séc.
XX, ou seja, não faz muito tempo que cerimônias do
Candomblé eram devassadas por batidas policiais.
A ação do município de Salvador denuncia uma
qualidade de racismo que funciona como motor das desigualdades sociais,
atingindo as condições de desenvolvimento de uma parcela
significativa de sujeitos no interior de seus próprios referenciais
simbólicos e culturais. Assim, a negação dos
padrões culturais e religiosos afro-brasileiros engrossa
o rol de fatores que caracterizam o déficit de oportunidades
da população negra e merece ser combatida. Para tanto,
torna-se imperioso derrubar o monismo sócio-cultural de que
o Estado está impregnado.
Um passo importante nesse sentido foi dado. Em 18 de Julho de 2003
foi reconhecida, pela Secretaria Municipal da Fazenda de Salvador,
após requerimento administrativo elaborado pela AATR/Koinonia,
a imunidade tributária do terreiro Ilê Axé Oxumarê,
um dos espaços litúrgicos afro-brasileiros mais antigos
da Bahia. Vários outros terreiros têm demonstrado interesse
e um amplo movimento jurídico-político de reconhecimento
e fortalecimento das identidades afro-brasileiras, no âmbito
da administração e do poder judiciário, tende
a ganhar mais força.
Entretanto, urge que o poder público municipal seja pressionado
para promover políticas públicas de valorização
concreta e reconhecimento do Candomblé na Bahia, aparentemente
festejado pelas autoridades e políticos ávidos por
votos, mas que, atrás do discurso, chancelam o preconceito
e a discriminação ao povo-de-santo.
topo
Nota sobre os transgênicos
O
Tribunal Regional Federal da 1º Região, com sede em
Brasília, acaba de cassar a medida liminar da juíza
Selene de Almeida, que autorizava o plantio e comércio de
soja transgênica no Brasil. A decisão suspensa fundamentava-se
na preservação do capital empregado no plantio ilegal,
que seria desperdiçado, relacionando-o com os
prejuízos do agro-negócio e da indústria Monsanto
de defensivos e monstros agrícolas, que detêm a patente
da soja transgênica. Desse modo, o plantio e comércio
da soja transgênica continua proibido no Brasil, que adotou
uma série de normas sócio-ambientais lastreada no
princípio da precaução.
Enquanto entidades ambientalistas, de trabalhadores rurais e de
defesa do consumidor lutam pela implementação de um
modelo de desenvolvimento sustentável, por outro lado, a
força dos grupos nacionais e internacionais que pugnam pela
liberação dos transgênicos no Brasil tem se
mostrado pujante e influente especialmente no seio do Palácio
do Planalto, Ministério da Agricultura e Congresso Nacional.
Com a cassação desta liminar, a Monsanto e setores
organizados do agro-negócio pretendem adiantar as conversações
com a Casa Civil para uma definição sobre a pesquisa,
plantio e comercialização de soja e outros transgênicos
em nosso país.
Aliás, o próprio presidente, que vem assumindo como
ninguém o falacioso discurso de neutralidade, já declarou
que tal definição não se dará politicamente,
mas cientificamente. O problema é que nem a ciência,
para os adeptos, chegou à conclusão alguma sobre os
impactos ambientais e na saúde destes cultivares.
Neste momento, sendo melhor optar pela prudência, com as possibilidades
traçadas no horizonte de mais um possível desastre
ecológico, levando-se em conta os gananciosos interesses
das multinacionais (de quem já dá pra desconfiar),
detentoras da patente da soja e outros transgênicos, é
preciso mais e mais luta, fôlego e gás dos movimentos
sociais locais e planetários para impedirem a liberação
dos transgênicos no país, continuando o esforço
de informar a sociedade sobre este enorme problema que se coloca
diante de nós e de futuras gerações.
topo
AATR
e Pólo Sindical da região do Sisal
A
AATR foi convidada para mediar um encontro envolvendo o Pólo
Sindical da Região do Sisal e o INSS. O objetivo foi socializar
informações previdenciárias para o atendimento
dos Segurados Especiais e definir exigências documentais únicas
para as Gerências de Juazeiro e Feira de Santana. Apesar da
frustração do objetivo inicial, causada pelo não
comparecimento do representante do INSS, o produto do encontro foi
surpreendente. Participantes de Sindicatos de Trabalhadores Rurais
de dez municípios da região manifestaram a intenção
de contratar um profissional do direito para fazer uma assessoria
que permitisse, entre outras coisas, o monitoramento da turma de
juristas leigos da região. Foram esclarecidas dúvidas
sobre questões previdenciárias e encaminhou-se um
encontro da turma de juristas leigos e de políticas públicas
formadas na região para avaliação e planejamento
de futuras ações no município de Valente nos
dias 17, 18 e 19 de outubro. Pelo visto, essa articulação
promete!
topo
Fórum
Nacional do Trabalho: consulta à sociedade civil ou meio
legitimador da reforma?
Criado
com o suposto objetivo de tornar a sociedade civil organizada um
ator do processo de modificação da legislação
que rege as relações de trabalho no Brasil, o FNT
Fórum Nacional do Trabalho, tem se mostrado mais como
um meio de legitimar uma reforma que parece já ter seu caminho
projetado do que como um efetivo instrumento de consulta popular.
Aparentemente precipitada, tal assertiva se fortalece quando se
observa o formato que o Fórum assumiu, como o de estabelecer
condições para participação e, conseqüentemente,
excluir da discussão setores do mundo do trabalho que muito
tinham a contribuir. Não bastasse a setorização
da discussão, foi imposta uma organização tripartite
que, felizmente, foi superada na Bahia, onde se adotou o
formato quatripartite (Poder Público, Trabalhadores, Empregadores
e Entidades Afins) , ilustrando uma espécie de cenário
importado de Brasília pronto para que os atores assumissem
suas personagens.
O que mais assustou foi a postura desleal do Delegado Regional do
Trabalho que, simplesmente, mudou as regras no meio do jogo,
impondo um virtual consenso das bancadas na medida em que exigiu
delas voto único. Deste modo, suprimiu aquilo que mais fortalecia
a discussão, as diferenças, e, conseqüentemente,
desmotivou a participação e frustrou a expectativa
dos participantes. Como se não bastasse, e essa é
a mais grotesca das contradições, o Governo Federal
impôs ao Fórum um caráter meramente consultivo,
fato que demonstra seu total descomprometimento com o produto das
discussões.
Enfim, aquilo que sugeria a possibilidade de se estabelecer uma
nova cultura política no Brasil, mostrou-se como um artifício
sórdido de legitimação de algo que parece já
estar pronto. Daí a necessidade de chamar a atenção
quanto à qualidade dessa pseudolegitimação,
na medida em que se viu frustrada, em face das dificuldades inerentes
ao formato e pelo tempo escasso justificado pela pressa
do governo, a efetiva participação da sociedade civil
nesse processo.
topo
RAPIDINHAS
A Sexta que inquietou-se. A terceira edição das já
tradicionais QuintaS InQuiEtantES pegou de surpresa uma morna manhã
de sexta (dia 12/09) e deu vazão a um papo interessantíssimo
com Luís Alberto Warat. Não percam a resenha completa
no próximo boletim!
Defesas de trabalhos científicos. Cumprida a tarefa
de defender o produto de suas pesquisas, Sara Côrtes agora
é mestra em Direito Constitucional pela UNB e Airton Pereira,
doutor em Direito do Trabalho pela PUC-SP. A AATR parabeniza os
seus mais novos associados ilustres! Brincadeirinha...
Formatura de Lucas. Contando os dias para sua formatura,
Lucas Jovem, que já defendeu a monografia, comemora
o fim do curso e sua permanência na equipe da AATR, agora
como profissional.
Revista da AATR. Interessados enviem seus textos para a segunda
edição da Revista da AATR. Em breve estará
nas bancas mais próximas.
Semana da Terra. Finalmente chegou a época da mais
esperada semana do ano. A XXI Semana da Terra Eugênio
Lyra acontecerá de 19 a 21 de setembro em Juazeiro
e trabalhará com os seguintes temas: A agricultura
familiar no governo Lula, Tendências organizativas
dos trabalhadores rurais autônomos e assalariados, A
reforma trabalhista e sindical e Política nacional
de meio ambiente. Apareçam os que puderem, aos menos
afortunados restará a próxima edição
deste boletim.
Fênix. Tentando ressurgir das cinzas, estão
sendo realizadas reuniões para a reconstrução
do Fórum de Entidades de Direitos Humanos da Bahia. Em breve,
mais notícias.
Políticas Públicas. Continuam chegando na AATR
diversas denúncias sobre desvio de dinheiro público
por parte de prefeitos no interior do Estado, fruto do Programa
Políticas Públicas. Os principais acusados são
os prefeitos de Campo Alegre de Lourdes, Serra do Ramalho e Xique-Xique.
Este último, José Magalhães, já sente
na pele os resultados da ação dos companheiros. Uma
das denúncias contra ele, realizada com o apoio da AATR,
foi julgada procedente pelo Tribunal de Contas dos Municípios.
Juristas Leigos. As duas mais novas turmas de juristas leigos
são de Ilhéus e Brumado. Iniciado o trabalho nos meses
de julho e agosto, as etapas serão retomadas após
a Semana da Terra, no mês de outubro.
topo
Créditos:
Textos:
Equipe de Estagiários da AATR Clarissa, Isac e Juliana
Agradecimentos: A Pedro, Lucas e Maurício pela inspiração
e apoio
Contatos: Sítio www.aatr.org.br
E-mail: aatrba@terra.com.br
Tel/Fax: (71) 329-7393
P.S.: Não reparem o boletim ter vindo mais gordinho,
o motivo foi o sedentarismo.
topo
Voltar
|