Associação de Advogados
de Trabalhadores Rurais
no Estado da Bahia


Editorial: Discriminação e Desigualdade Racial no Brasil
Retrato ¾ do Desrespeito do Estado à Diversidade Cultural
O Povo-de-Santo e a Discriminação Estatal
Sou a boa. E boazinha
Rapidinhas
A utopia dos olhos escancarados
Créditos


Notícias da AATR
Boletim Informativo da Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais
no Estado da Bahia – Novembro de 2002 - Nº 13


Edição Especial

“Os netos de teus mulatos e de teus cafuzos e a quarta e a quinta gerações de teu sangue sofredor tentarão apagar a tua cor! E as gerações dessas gerações quando apagarem tua tatuagem execranda,não apagarão de suas almas, a tua alma, negro!”.
Poeta Jorge de Lima


EDITORIAL: Discriminação e Desigualdade Racial no Brasil 

O “Notícias da AATR” deste mês, em edição especial, é dedicado ao dia da consciência negra, (co)memorado em 20 de novembro. Este boletim, nessa perspectiva, constitui em mais um esforço no sentido de denunciar e trazer à tona a questão da desigualdade e da discriminação racial no Brasil.  

Sem dúvida, a realidade é cruel. Segundo dados do PNAD – Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (1999), brasileiros afro-descendentes são 45% da população, constituindo a segunda maior nação negra do mundo, atrás apenas da Nigéria. Contudo, os negros correspondem a 64% da população pobre e 69% da população indigente do Brasil. Há de se considerar, ainda, que ao longo da década de 90, apesar da diminuição do índice de pobreza no Brasil, a desigualdade entre brancos e negros manteve-se estável. Além disso, a renda média mensal da população negra corresponde a menos da metade daquela percebida entre brancos. 

Bastante significativos, também, são os dados relativos à educação. Os jovens negros de hoje, assim como seus avós, têm em média 2,3 anos a menos de estudo do que os jovens brancos. Se 63% dos jovens brancos entre 18 e 23 anos não completaram o ensino secundário, entre os negros, o percentual atinge 84%. Já no ensino superior, a desigualdade é ainda mais alarmante: enquanto 89% dos jovens brancos não tiveram acesso à universidade, entre os negros o número chega a 98% de exclusão. Daí não ser difícil acreditar que nas universidades brasileiras há mais negros africanos (em face de convênios firmados entre o Brasil e países como Moçambique e Angola) do que brasileiros...

É com base nesse contexto, então, que a desigualdade brasileira deve ser (urgentemente) tratada. Pois o Brasil não é um país pobre, mas um país extremamente injusto. Em outras palavras, significa que a pobreza tem como determinante, não a escassez, mas a desigualdade na distribuição dos recursos.

    Enfim, se queremos construir uma sociedade mais justa e igualitária, temos que colocar a questão racial no centro do debate. Políticas públicas afirmativas (que, de maneira alguma, resumem-se às cotas nas universidades...), uma atuação mais engajada do Ministério Público e decisões mais corajosas do Poder Judiciário seriam, talvez, um grande passo, na longa caminhada que temos e precisamos enfrentar.
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Retrato ¾ do Desrespeito do Estado à Diversidade Cultural

Como mostraram os dados, a questão é séria. Remonta a um nefasto processo colonizador de imposição dos referenciais culturais judaico-cristãos do povo europeu aos africanos e índios como estratégia de vigilância e docilização desses povos.
 
Entre as muitas espécies de discriminação sofridas por negros e índios, destaca-se aquela oriunda dos próprios poderes estatais. É que, todos sabem, o Estado é mais próximo e mais amigo de uns do que de outros...
 
Sem dúvida, eis a maior de todas as discriminações: a omissão, representada pela falta de políticas públicas afirmativas direcionadas ao povo negro e indígena.
 
Com efeito, convivemos tão-somente com políticas públicas de cunho universalista, que acabam por diluir as desigualdades e as diferenças presentes na sociedade.
 
Isso significa que ao tratar da fome, por exemplo, não se pode ignorar as peculiaridades – ou seja, uma exclusão mais acentuada – que marcam o Nordeste, os índios e os negros. Cumpre lembrar que, aliado a isso, a desigualdade não é puramente econômica, mas também étnica, social, cultural e política. Daí ser imprescindível que a desigualdade racial seja elevada à condição de elemento central na formulação das políticas públicas e na definição dos seus objetivos. 

Outro aspecto que demanda uma maior atenção está na falta de vontade política por parte do Estado no sentido de concretizar o disposto no artigo 69, dos Atos das Disposições Transitórias da Constituição Federal, que garante aos negros remanescentes de quilombos a tão almejada propriedade coletiva das suas respectivas terras.
 
Para a concretização destes e outros direitos é fundamental o engajamento do Ministério Público e do Poder Judiciário. No Estado Democrático de Direito, não se admite mais que juízes e promotores reacionários e formalistas reduzam as grandes questões do país a formalidades e picuinhas jurídicas. O direito consagrado na Constituição de 1988 é um outro direito, transformador, que demanda uma mentalidade nova, progressista e emancipatória para lidar com ele. Assim, estes órgãos precisam assumir a sua dimensão - ou melhor, obrigação – política, estabelecida pela Constituição Federal.

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O Povo-de-Santo e a Discriminação Estatal  

Outra discriminação que precisa ser denunciada é aquela que toca aos terreiros de candomblé. E nesse aspecto, não obstante a propaganda oficial, o Estado da Bahia se constitui num nefasto exemplo.
 
O que dizer, por exemplo, da intensa repressão policial contra os cultos afro-brasileiros ocorrida em meados do século passado? E o que dizer do “Museu” Estácio de Lima, vinculado à Secretaria de Segurança Pública do Estado da Bahia, que expõe, lado a lado, “bizarrices” e “excrescências” como fetos com duas cabeças, testículos de assassinos, armas, enfim, objetos criminógenos e (acredite se quiser...) peças sagradas do Candomblé?  

Pasmem. Objetos que foram apreendidos pela polícia baiana na primeira metade do século passado, época de repressão às Religiões Africanas, e coletados (ou melhor, apropriados indebitamente) pelos etnólogos Nina Rodrigues e Estácio de Lima são expostos ao público como se fossem objetos provenientes de crime, pois ainda se encontram aos cuidados da SSP, mesmo com a transferência provisória de tais objetos para o Museu da Cidade, à revelia dos que respeitam a diversidade cultural! É isso mesmo, artefato do Candomblé, para o Estado baiano, é coisa de polícia...
 
Nos dias de hoje, embora não exista mais repressão naqueles moldes e não obstante a recente transferência das mencionadas peças para o Museu Salvador (da Prefeitura, localizado no Pelourinho), a discriminação estatal ainda persiste: no lugar dos objetos de Candomblé, que ficavam no Museu Estácio de Lima (ali no DPT Nina Rodrigues) foram colocados objetos indígenas.
 
Como se não bastasse, a Prefeitura Municipal da Terra do Axé, contrariando expressa disposição constitucional que assegura imunidade tributária aos Templos Religiosos de qualquer culto, cobra IPTU dos terreiros de Candomblé, não os reconhecendo enquanto Templo (olhem aí os referenciais judaico-cristãos de templo religioso)...
 
O pior de tudo isso é que nossos parlamentares (inclusive de esquerda) não atentam para esse gravíssimo problema e costumam aprovar Leis que aduzem tais cobranças, assim como o Tribunal de Contas dos Municípios que aprova contas públicas cuja fonte de receita enseja cobrança de IPTU a Terreiros Religiosos. Ademais, não há na Câmara nenhuma mobilização para regulamentar os direitos dos terreiros de Candomblé, que ficam, então, à mercê da burocracia da Secretaria da Fazenda do Município.  
 
Daí que uma das vertentes de atuação da AATR, em parceria com o Koinonia, tem sido, justamente, buscar o reconhecimento da imunidade tributária dos nossos terreiros. Já foram ajuizados dois processos administrativos, um envolvendo o Abassá de Ogum (Nova Brasília) e outro o Oxumarê (Vasco da Gama). As petições podem ser encontradas em nosso site.
 
E tem mais: nosso Estado, responsável civil a administrativamente pelos cartórios de registro civil, também discrimina as associações civis representativas de Terreiros de Candomblé quando cria incontáveis óbices na consecução do registro. Assim, por exemplo, é muito difícil que um cartório aceite o fato de na associação ter um líder religioso (normalmente, o Babalorixá ou a Ialorixá) e, muito menos, se este ficar no cargo até a morte.
 
Trata-se da insensibilidade (para não falar da notória corrupção nos cartórios: criar óbices para vender facilidades) de Oficiais de Registro no tocante às peculiaridades do funcionamento de organizações religiosas de Candomblé associada à inoperância da Corregedoria Geral de Justiça.


Regularização fundiária urbana
 
O foco de atuação de nossa entidade, com inserção maior no interior da Bahia -como todos sabem-, é a luta pela efetivação dos direitos humanos numa sociedade plural, socialista e radicalmente democrática. Todos reconhecem que com as profundas transformações ocorridas no mundo rural, não dá mais para dissociá-lo, como outrora, do urbano.
 
Aliás, o visionário Rufino de “Grande Sertão: Veredas”, do inesquecível Guimarães Rosa, já dizia que o sertão está em toda parte. Onde quer que se vá, se vai pro sertão. Não dá pra fugir. 
Pois bem. Seguindo orientação deste protagonista, a Associação de Advogados de Trabalhadores Rurais, numa parceria firmada com o Koinonia, está acompanhando o processo de Usucapião do Terreiro Oxumarê, com mais de sessenta anos de existência. É o início de um grande trabalho que envolverá a regularização fundiária de Territórios Negros Urbanos contemplados pelo Projeto Egbé -Territórios Negros, do mencionado parceiro.
 
O principal desafio é o enfrentamento da lastimável e excludente situação fundiária da capital baiana, marcada pela ausência de uma política urbana democrática, pela especulação imobiliária e, ainda, pela manutenção de imensos latifúndios urbanos em poder de quem só aparece quando a terra é reivindicada por posseiros.
 
Diante disso, há o desafio de pressionar a urgente reforma urbana em Salvador, principalmente agora com a recém promulgação do Estatuto das Cidades, que tem como pilar a gestão democrática das cidades.
 
O sertão está por toda parte: onde tiver sertão, aqui estaremos.

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Sou a boa. E boazinha

Qualquer segmento humano – social, econômico, cultural, político – pode ser ou pode vir a ser, a depender do contexto considerado, da ótica adotada e do momento histórico, discriminado de alguma forma. Ironicamente, a história está cheia de exemplos de grupos discriminados que se tornam discriminadores. E vice-versa, não custa lembrar.  

O cristão que hoje discrimina o candomblé pertence a uma denominação que foi duramente perseguida pelo poder romano nos primeiros séculos de nossa era, tendo, depois, não só ascendido à condição de religião oficial do Império Romano, como sobrevivido à queda deste império como uma instituição. Em nossos dias, da Comunidade Européia chegam-nos notícias do que pode advir da intolerância, como na forma de tratamento dispensado a turcos por neonazistas alemães. Sem esquecer toda a estupidez da situação criada com o esfacelamento da antiga Iugoslávia, com seus desdobramentos. Por outro lado, acompanhamos também o difícil, mas frutífero caminho percorrido por Nelson Mandela para eliminar o apartheid na África do Sul sem estigmatizar os brancos.
 
No mundo contemporâneo, quando se tornou de mau gosto ser discriminador ou assumir preconceitos, tornou-se habitual que, não apenas cada segmento “bola da vez”, mas toda a parcela progressista e organizada da sociedade esteja sempre promovendo cruzadas contra intolerâncias. No entanto, combater a intolerância não pode ter por corolário o clamor pela tolerância para com o discriminado.  
 Toleramos aquilo que não podemos evitar; aquilo que não conseguimos alterar; o que, embora ruim e inferior nos é imposto; aquilo de que nos livraremos assim que possível. Tolerar, explica-nos o companheiro Aurélio, é ser indulgente. Assim, a tolerância é uma atitude de magnanimidade de alguém que, de tão superior, tão bom, pode ser condescendente, bonzinho.
 
Portanto, a luta pela efetivação de todos os direitos humanos, tanto civis e políticos quanto econômicos, sociais e culturais implica na superação da tolerância, na busca pelo respeito à diferença, na compreensão de que Diferente não é sinônimo nem de melhor, nem de pior, mas sim de Diverso, Desigual.
 
O que seria do azul, se todos gostassem do amarelo?

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RAPIDINHAS

- Diagnóstico da Exclusão. Podem ser encontrados no site www.ipea.gov.br os excelentes trabalhos Desigualdade racial no Brasil: evolução das condições de vida na década de 90 e Perfil da discriminação no mercado de trabalho – homens negros, mulheres brancas e mulheres negras. São apresentados dados (cruelmente reais) sobre a situação dos negros no nosso país.
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A utopia dos olhos escancarados

Se num momento de loucura
acaso arriscares acima do tédio

e afoito sozinho dobrares

a agreste solidão da esquina dos dias,

poderás então entrever

por entre as brumas do tempo

a imensa multidão e o verde prazer

das tuas mais urgentes utopias.
Se depois com ardor escreveres

- ridícula como o poeta a dizia -

uma simples carta de amor

cuja verdade ofereça fogosa o seu pudor

sinceros significados tão prementes

que a ouro fiquem bordados

no seio nu das palavras inexistentes,

imune farás tombar do muro os
pecados
com que este presente impune

procura sarcástico esconder-nos o futuro.
Se porem impossível te for
a sangria das palavras a sério

e ao cansaço sem outra saída

com fúria não conseguires opor

a beleza dum punho bem apertado,

arrepia caminho e não ouses.

Nunca ouses monstro malfadado

dobrar a esquina deste tempo

de cobardias prenhe e silêncios
cheio.
Porque só o amor mata a hipocrisia

e reconhece os homens iguais

porque para além deste dia

só de olhos escancarados se sonha a
utopia."
(Poesia de Adriano Alcântara, poeta africano)

 
Créditos:

Textos: Lucas, Murilo e Pedro.
Participação Especial (“Sou a Boa. Boazinha”): Isadora Browne Ribeiro.
Agradecimentos: Zumbi dos Palmares e a todos os anônimos que, pelo Brasil a fora, têm dedicado a vida no enfrentamento das desigualdades raciais que assolam a nossa sociedade.

Contatos: Sítio – www.aatr.org.br
E-mail: aatrba@terra.com.br
Tel/Fax: (71) 329-7393

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