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Jader Barbalho, Adimilson e Kafka
ONU na Bahia
Rapidinhas
Liberdade
Créditos
Notícias
da AATR
Boletim
Informativo da Associação de Advogados de Trabalhadores
Rurais
no Estado da Bahia Fevereiro de 2002 (e primeira quinzena
de março...) - Nº 6
Jader
Barbalho, Adimilson e Kafka.
Recentemente todo Brasil acompanhou
a prisão do ex-senador Jader Barbalho. Em questão
de horas, o Senador foi preso, transferido de Belém para
Palmas, posto em liberdade (por ordem do Tribunal Regional Federal
da 1ª. Região) e, após fretar um avião,
levado de volta a sua cidade. Neste caso, sem dúvida, a Justiça
agiu com presteza, seja na prisão do acusado, seja na expedição
do alvará de soltura.
Mas nem todos têm a sorte do nosso respeitável Senador.
Adimilson Dias de Jesus, por exemplo, viveu um episódio semelhante
ao narrado acima: por ordem de um juiz de outro Estado que não
aquele em que reside, foi preso provisoriamente. Assim como Jader,
deveria ter sido transferido imediatamente, no caso, de Salvador
para São Paulo. Deveria...
Diferentemente do Senador, Adimilson teve que aguardar um pouco
mais. Com efeito, nosso amigo foi preso em caráter
provisório no dia 14 de janeiro de 2000 e no cárcere
permaneceu até o mês de março de 2002. Diante
de absoluta ilegalidade e tamanha injustiça, a AATR foi solicitada
a intervir no caso pela CUT-BA.
Os estagiários da entidade impetraram habeas corpus em Juízo
local. O Juiz se deu por incompetente para julgá-lo (foi
ele mesmo que disse!), alegando que o foro próprio seria
o Juízo paulista, ignorando que ninguém pode permanecer
preso indefinidamente à espera de um milagre. Na preparação
do habeas corpus dirigido ao Juízo paulista verificou-se
o maior absurdo: já havia um alvará de soltura, expedido
em 9 de setembro de 2001. Assim, além do excesso de prazo
da prisão, a ordem de soltura estava a mais de seis meses
sem o devido cumprimento.
A 1ª Vara do Júri paulista enviou a ordem de soltura
por fax, mas o Judiciário Baiano não costuma aceitar
este tipo de comunicação processual (desrespeitando
a lei), a não ser quando a ordem é de tomar terra
ocupada por trabalhador ou de dar porrada em manifestantes. Enquanto
isso, a prisão abusiva aqui relatada delongava-se indefinidamente.
É provável que se não houvesse intervenção
da AATR no Processo, a ficção kafkaniana
se tornaria realidade, e o destino de nosso companheiro talvez fosse
mais incerto do que o do senhor K. Aliás, sorte teria nosso
protagonista brasileiro se sofresse apenas as incertezas do personagem
de Kafka. Muito pior, teve seu mais importante direito - a liberdade,
restringida pela burocracia e incompetência estatal. Depois
de demasiado desgaste com as tentativas e desistência de convencer
o Judiciário baiano a aceitar o fax, conseguimos (sem menos
esforço) solicitar o envio pelo Juízo paulista do
original via sedex. Enfim, seria enviada a carta precatória
e o nosso amigo seria solto. Seria. . . .
Mas, Kafka não foi tão criativo quanto a burocracia
brasileira. Assim, o Sedex perdeu-se na distribuição
interna do Fórum Ruy Barbosa, talvez por culpa de um funcionário
com dengue... Buscamos, então, pesquisar nos correios aonde
foi entregue tal documento. Pasmem: o documento que seria a liberdade
de Adimilson estava, por engano, conhecendo o milionário
Palácio da Justiça.
Corrigido o pequeno equívoco de endereçamento, que
apenas manteve preso Adimilson por mais uma semana, o alvará
de soltura foi entregue finalmente no setor correto. Agora, faltaria
apenas aguardar mais 24 horas para ser gerada no sistema,
a etiqueta do processo. Depois ele viria a ser solto.
Adimilson foi posto em liberdade em 6 de março de 2002, depois
de mais de dois anos preso "provisoriamente", mesmo com
o alvará de soltura expedido há seis meses atrás.
Felizmente, ele retornou à sua cidade e já está
trabalhando. Nem Kafka acreditaria nisso...
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ONU na Bahia
No dia 12 deste mês,
na Faculdade de Administração da Universidade Federal
da Bahia, foi realizado o encontro entre as entidades dos movimentos
sociais do Estado da Bahia e a delegação da Comissão
de Direito à Alimentação da ONU, incluindo
seu Relator Especial, Jean Ziegler. Esta delegação
veio em missão ao Brasil com o propósito de investigar
as condições alimentares dos brasileiros e os casos
de extrema pobreza e violação ao direito à
alimentação e acesso à água.
Jean Ziegler destacou a importância do diálogo com
a sociedade civil, pois, por vezes, as visitas da ONU aos países
signatários se limitam a colher dados oficiais e a manter
conversas com setores governamentais, descurando-se dos relatos
e das leituras conjunturais feitas pelos movimentos populares, imprescindíveis
para uma análise internacional das condições
locais. Aproveitando o ensejo da visita à Bahia, o relator
falou sobre as políticas tardias de promoção
das populações negras, bem como sobre a necessidade
premente de regularização das terras de comunidades
remanescentes de quilombos.
As entidades ofereceram denúncias, testemunhos e impressões
acerca das condições políticas, econômicas
e sociais locais, criticando as políticas públicas
concebidas sem participação efetiva da sociedade civil,
apresentando propostas para a erradicação da fome.
A AATR foi fundamental na articulação com os movimentos
sociais do interior do Estado, encaminhando três casos de
extrema pobreza e violação de Direito à Alimentação
e Moradia, junto aos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais de Valente
(que compareceu e entregou um vídeo para instruir a denúncia
encaminhada) e de Quinjingue, ambos da região do sisal, e
ao Movimento de Organização Comunitária (MOC).
Todo material oferecido pelas entidades e colhido pela comissão
(relatos, dados, denúncias etc.) servirá de substrato
para o relatório final que, em setembro próximo, será
encaminhado para as instâncias de Direitos Humanos da Organização
das Nações Unidas, no sentido de pressionar o Governo
Brasileiro a cumprir o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos
Sociais e Culturais, do qual é signatário.
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RAPIDINHAS
- Novo técnico
na AATR. Maurício Azevedo, advogado, foi contratado recentemente
e já está integrando os quadros da entidade.
- Cláudio, o sortudo. Foram três prêmios
em pouco mais de uma semana: dois abadás do É
o Tchan (graças a uma frase enviada para um concurso
na Internet) e uma Moto (presente do Shopping Center
Lapa). Se você era daqueles que não acreditavam em
concursos e promoções...
- 20 anos e site. A comemoração dos vinte anos
de fundação da AATR será no período
de 17 a 19 de abril. O seminário ocorrerá na Faculdade
de Direito da Ufba (17/04) e no CTL, em Itapuã
(18 e 19/04). Na mesma época estará sendo inaugurado
o nosso site: http://www.aatr.org.br
e será realizada a Assembléia Geral (20/04). Aguarde
a programação completa no próximo número.
- São Francisco. Também integrando nas comemorações,
no dia 12 de abril a AATR estará promovendo debate sobre
o Comitê Gestor da Bacia do São Francisco. O mesmo debate ocorrerá
em Bom Jesus da Lapa (data a ser definida).
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LIBERDADE
Não
ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.
Queira-te
eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.
Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.
Que
eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sozinho a murmurar teu nome.
Direto
do Presídio Especial, São Paulo, 1939,
Carlos Marighella
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Crédito:
Edição: Estagiários
da AATR.
Diagramação: Também.
Toque literário: Idem.
Agradecimentos: Adimilson, Franz Kafka e Carlos Marighella.
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