Mais de um século após a Lei Áurea, comunidades
quilombolas vivem em condições precárias
e lutam para reaver suas terras
Adriana
Freitas
Guilherme Dacosta
Em
casas de pau-a-pique, os descendentes de escravos escapam da fome
graças ao assistencialismo do governo.
Bisneto de escravos, Miguel Francisco da Silva, de 40 anos, vive
um interminável acerto de contas com o passado. No quilombo
de Santana, em Quatis (a 147 quilômetros do Rio), ele já
passou fome, ficou meses sem trabalhar na lavoura e enfrentou
a fúria dos fazendeiros. A origem da disputa está
em 1869, quando os 828 hectares da área foram doados pelo
Barão de Cajurú, latifundiário escravocrata.
Mais de um século depois, fazendas e sítios tomaram
a região e os quilombolas ficaram com menos de 1% da terra.
Ainda assim, sofrem ameaças de morte e fazem da sobrevivência
uma luta diária.
Líder da comunidade de Santana, Miguel divide um barraco
de pau-a-pique com a mulher, Maria Aparecida, quatro filhos e
um cachorro. Outras 18 famílias dividem o quilombo, criado
19 anos antes da assinatura da Lei Áurea. De péssima
qualidade, a terra torna a agricultura inviável. Trabalho,
só quando os fazendeiros precisam de mão-de-obra
temporária. A comida na mesa depende do assistencialismo
da União, com o programa Fome Zero, e do Estado, com o
Cheque-Cidadão.
- Não podemos fazer nada com as mãos amarradas,
precisamos desatá-las. Meus pais achavam que nossas terras
estavam perdidas. Em 2000, soubemos pela Fundação
Palmares que poderíamos tê-las de volta. Até
agora, não conseguimos - lamenta Miguel.
No fim de março, o governo federal decidiu intervir na
questão e regulamentou o decreto nº 4817, que permite
ao Incra indenizar os fazendeiros que estiverem em áreas
quilombolas. A legislação é vista pelo Planalto
como o início de uma solução para o conflito.
Em Quatis, o título de reconhecimento de domínio
foi expedido em 2000 pela Fundação Palmares, que
classificou de quilombo a comunidade de Santana. Para registrar
o título, contudo, o cartório do município
alegou dúvidas com relação aos documentos
apresentados. Em 2001, um processo foi aberto, mas a comarca local
ainda não se decidiu sobre a questão.
O governo considera que existem hoje no Brasil 743 quilombos,
número que na verdade pode chegar a 2 mil. A portaria de
4 de março da Fundação Palmares estipula
a auto-identificação como novo critério para
o reconhecimento dos grupos remanescentes de quilombos. O objetivo
é tornar mais ágil o processo de titulação
de terras.
Além disso, o decreto do governo confere ao Incra a competência
para atuar na demarcação das áreas quilombolas
e indenizar os latifundiários se os títulos de propriedade
deles tiverem validade. Caso os títulos sejam podres, o
órgão só pode indenizar as benfeitorias (imóveis).
Na semana passada, o presidente do Incra, Rolf Hackbart, assinou
a regulamentação do decreto. As novas regras, no
entanto, só ganham validade a partir deste mês, com
a publicação no Diário Oficial.
Das 71 áreas tituladas, 55 apresentam situação
de conflito, a maioria decorrente da ocupação irregular
por parte de fazendeiros e posseiros. A procuradora-geral da Fundação
Palmares, Ana Maria Lima de Oliveira, informa que a violência
é constante nessa disputa. Na comunidade de Mata Cavalo,
em Nossa Senhora do Livramento (MT), milícias armadas foram
arregimentadas para expulsar os quilombolas das terras.
A procuradora lembra ainda que o registro dos títulos desencadeia
uma série de ações e liminares na Justiça.
- As decisões demoram principalmente em função
da morosidade nas comarcas do interior. Por isso, transferimos
as ações para a esfera federal - explica Ana Maria,
que precisou interromper a conversa com o JB para tratar do conflito
entre a polícia e a comunidade do Brejo das Crioulas, em
Montes Claros (MG). Os quilombolas tentam reconquistar a terra
ocupando uma área cercada pelos fazendeiros.
Também em Minas, a procuradora cita o exemplo do quilombo
de Porto Coris, no município de Leme do Prado, que será
inundado pelas águas da hidrelétrica Irapé,
com capacidade de 360 megawatts. A assessoria de imprensa da Companhia
Energética de Minas Gerais afirma que a transferência
da comunidade para outra área tem o aval dos órgãos
ambientais, que também levam em conta a importância
histórica do lugar.
No interior do Rio, o panorama é semelhante. O quilombo
da Ilha de Marambaia, em Mangaratiba, pertence à Marinha
e já causou muita briga na Justiça. A ilha servia
como entreposto de escravos até que, com o colapso do negócio,
o comendador Joaquim José de Souza Breves distribuiu as
praias entre as famílias de ex-escravos. O 1° Distrito
Naval informa que a Marinha precisou recorrer aos tribunais para
conseguir a reintegração de posse e ''defender os
legítimos interesses da União''. Em 1905, foi erguida
na área uma escola de aprendizes-marinheiros. Hoje, o lugar
serve de base para a realização de exercícios
de operações anfíbias.
O baixo nível de instrução dos descendentes
de escravos também contribui para que as comunidades saiam
prejudicadas dos conflitos. Ana Maria vê o analfabetismo
como grande obstáculo à manutenção
dos quilombos:
- Na Invernada do Paiol da Telha, em Guarapuava, no Paraná,
a comunidade passou os direitos sucessórios para terceiros
e muitos sequer receberam parte do pagamento. O grupo foi enganado
e agora quer reaver suas terras - conta a procuradora.
Litígios e conflitos ecológicos
Em meio às centenas de comunidades em conflito pelo país,
o Incra concentra suas forças no Polígono de Calunga,
em Goiás, com 253 mil hectares que se estendem pelos municípios
de Monte Alegre, Teresina de Goiás e Cavalcante. Com 1.200
famílias, o maior quilombo do Brasil perdeu na Justiça
100 mil hectares da área original. O consultor do Incra
Cláudio Braga reconhece que Calunga é a área
que tem dado mais trabalho à autarquia.
- A disputa pelas terras ali tem gerado muito litígio.
Nosso estudo sobre as possibilidades de indenização,
contudo, fez com que os fazendeiros demonstrassem mais tranqüilidade.
Assim, o conflito arrefeceu - afirma Braga, que integra o Grupo
de Trabalho dos Quilombos.
O consultor alerta para a existência de quilombos em áreas
de reserva biológica, onde o Ibama lança mão
de uma rígida legislação para impedir a presença
das comunidades. Ainda assim, há exceções:
- Em Flechal, no Maranhão, um quilombo recebeu a titulação
da área, o que abriu um precedente - informa Cláudio
Braga.
Os quilombos são grupos étnicos, predominantemente
constituídos pela população negra rural ou
urbana que se definem a partir das relações com
a terra, o parentesco, o território, a ancestralidade,
as tradições e práticas culturais. As terras
foram recebidas por doações dos senhores ou ocupadas
no século 19, quando os negros fugiam da escravidão.
Dados oficiais estimam que os 743 quilombos reúnam 2 milhões
de habitantes, distribuídos numa área de 30 milhões
de hectares.
Os territórios quilombolas tiveram o primeiro reconhecimento
com a Constituição Federal de 1988. Com o decreto
nº 4.887, de 20 de novembro de 2003, a emissão de
títulos foi incorporada ao Plano Nacional de Reforma Agrária.
O presidente da Fundação Palmares, Ubiratan Castro
de Araújo, não tem dúvidas sobre a situação
de miséria em que vivem os quilombolas pelo Brasil. Por
isso, o governo planeja incentivar a política de segurança
alimentar nas comunidades. O Ministério de Desenvolvimento
Agrário promete desenvolver políticas de crédito
e assistência técnica específica. Na segunda
etapa do Fome Zero, em maio, serão distribuídos
instrumentos agrícolas, de pesca, irrigação
familiar e criação de abelhas.
- Os brasileiros precisam entender a necessidade de uma legislação
que defenda os remanescentes dessas comunidades. Os quilombos
eram uma forma de luta de classes no cenário da escravidão,
como são hoje as greves - compara Ubiratan.
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