CARLA FERREIRA
Cobrindo
a face com camisas e casacos, usando perucas, óculos escuros,
sob a proteção de um forte aparato policial (guarnições
do Centro de Operações Especiais da Polícia
Civil) e aparentemente incomunicáveis, Ângela
Maria Santos e Patrícia Santos Silva entraram esta semana
no corredor do Fórum Carlos Souto (Mouraria). Elas foram
as duas principais testemunhas do caso que envolve, conforme acusações,
uma das maiores organizações criminosas da Bahia,
que teria como QG o Morro do Águia, em São Gonçalo
do Retiro, e como protagonista, Raimundo Alves de Souza, Ravengar.
As
duas, mãe e filha, tinham informações importantes
e cruciais para o caso, que podem ser utilizadas como provas pelo
juiz Antônio Roberto Gonçalves, da 2ª Vara de
Tóxicos e Entorpecentes, segundo declarou o promotor Jânio
Braga, um dos responsáveis pela denúncia envolvendo
a suposta quadrilha.
Justamente
por serem peças-chave no julgamento, os depoimentos causaram
muito tumulto e geraram vários questionamentos na sala
de atendimento do Fórum Carlos Couto, onde houve os interrogatórios
a portas fechadas e janelas de vidro tapadas por pedaços
de papel. Foram 25 acusados e um batalhão de 18 advogados
de defesa.
Foram
inúmeras as alegações e questionamentos da
defesa, que tentou de todas as formas impugnar as testemunhas.
Muitos dos argumentos foram por causa de regras - pouco conhecidas
- do Programa de Apoio e Proteção a Testemunhas,
Vítimas e Familiares de Vítimas de Violência
(Provita), que teriam causado uma certa indigestão.
O advogado Leite Matos, que defende dois envolvidos, reclamou
por elas estarem descaracterizadas, isoladas da sociedade e sob
custódia do Ministério Público (MP). Além
disso, acusa as duas por falso testemunho e chegou a ingressar
com uma queixa-crime no MP, conforme ele mesmo confessou. Enfim,
todas as atenções estavam voltadas para as duas
e para o que elas tinham a dizer.
Querendo
ou não, Patrícia e Ângela resolveram ligar-se
ao Provita porque se sentiram ameaçadas. Uma delas, Patrícia,
chegou a admitir que foi ameaçada de morte. Por isso, elas
aceitaram as rigorosas regras do programa e mudaram de vida. Atualmente,
moram em outro local, perderam contato com familiares e amigos
e estão recomeçando uma outra vida. Durante a semana,
as duas tiveram que sentar frente a frente com todos os acusados,
inclusive Ravengar, que, de acordo com os depoimentos que prestaram
na Corregedoria da Polícia Civil, é o mandante de
homicídios ligados ao tráfico.
Ameaças
Poucos sabem que os limiares entre uma simples ameaça
e a concretização dela são bem próximos.
Principalmente quando a testemunha presenciou casos de extermínio,
tráfico de drogas ou crime organizado. Muitas histórias,
com finais trágicos, envolvendo testemunhas que ocorreram
na Bahia comprovam isto.
Em
outubro do ano passado, por exemplo, o mecânico Gerson de
Jesus Bispo foi morto três semanas depois de prestar depoimento
à relatora da ONU Asma Jahandir. Ele citou os nomes dos
autores do assassinato (entre estes, policiais) de seu irmão,
Antônio Carlos de Jesus Bispo. Seu corpo foi encontrado
às margens da BR-101, no bairro de Santa Madalena, em Santo
Antônio de Jesus, a 185km de Salvador, no dia 9 de outubro.
Um
ano antes, situação parecida ocorreu no bairro de
Saramandaia, próximo à favela Pélaporco.
Valmir Santana Santos foi morto com vários tiros e o assassinato
foi atribuído a um grupo de extermínio, o mesmo
que seria responsável pela execução de Juarez
Souza. Valmir presenciou a morte de Juarez Souza e depôs
contra os integrantes do grupo de extermínio na Polícia
e na Justiça.
As
testemunhas Antônio Carlos de Jesus Bispo e Valmir Santana
Santos, que denunciaram verdadeiros grupos organizados, responsáveis
por vários homicídios, não quiseram aderir
ao Provita. Provavelmente por causa das rigorosas regras que são
impostas para os seus beneficiários e que foram impostas
a Patrícia e a Ângela, exigindo - algumas vezes -
afastamento total e da família - quando esta também
não é incluída.
Quem
quebra as regras é desligado
A
testemunha muda completamente a vida, há exigências
de limitação à liberdade e nem todas têm
disposição para enfrentar a questão,
explicou o deputado Yulo Oiticica, que é presidente da
comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa
e conselheiro do programa.
O
parlamentar explicou que, antes de entrar para o Provita,
os candidatos tomam conhecimento de todas as suas exigências
e da importância de seu depoimento. Elas têm
que ter ciência de tudo, pois não poderão
quebrar as regras. Manterão a vida normal, mas em outro
lugar, acrescentou, revelando que o objetivo é que
o beneficiário se reintegre à sociedade do local
onde passa a morar, desenvolvendo atividade profissional, vivendo
normalmente, mas com algumas limitações.
Quem
quebra as regras se desliga completamente, informa o deputado,
acrescentando que nunca houve, desde quando o Provita foi
regulamentado na Bahia, em 2001, nenhuma morte de testemunha protegida.
No Estado, o programa passou a ser uma ferramenta-chave em alguns
casos que desmontaram quadrilhas e grupos de extermínio.
Para as testemunhas, ele representa a única saída,
pois se tornaram alvo fácil da chamada queima de
arquivo
Provita
oferece proteção à vida
O
Provita é administrado pela Associação
de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia (AATR)
e possui um conselho deliberativo que é responsável
pela triagem dos beneficiários. A cláusula principal
que é avaliada para garantir a adesão é a
situação de risco, conforme determina a lei federal
nº 9.807/99, que regulamentou a sua existência.
Seus
artigos 1º e 2º determinam que a pessoa deve estar coagida
ou exposta à grave ameaça; a situação
de risco deve ser atual e deve decorrer, numa relação
de causalidade, da colaboração que foi prestada
pelo beneficiário a procedimento criminal.
Determinam
ainda que as pessoas tenham personalidade e conduta compatíveis
com as restrições. Daí porque o ingresso
só é permitido após esta triagem, que envolve
profissionais como advogados, psicólogos e assistentes
sociais. Há uma rede de voluntários que ajuda o
programa e, em alguns casos, abriga os protegidos, que têm
casa e alimentação custeados.
Todas
as regras do Provita são sigilosas. A única coisa
que se sabe é que elas são responsáveis por
um completa mudança de vida de seus beneficiários.
É um amparo 100% legal. A crítica da defesa
é um elogio, é sinal de que o programa começa
a incomodar, concluiu Yulo.
Testemunha
deve dizer a verdade e o que viu
A
testemunha é do juízo, não é das partes.
A testemunha é para dizer o que sabe e o que viu. Não
é nem para acusar nem para defender. A intenção
é irrevelante, explicou o advogado criminalista Sebastian
Albuquerque de Melo, que é professor de Direito Penal da
Universidade Católica de Salvador e da Faculdade Jorge
Amado.
Segundo
Albuquerque de Melo, não há nada no Código
de Processo Penal que estabaleça regras quanto à
descaracterização das testemunhas. A lei, em seu
artigo 203, determina apenas que as testemunhas declarem nome,
estado civil, idade, profissão, endereço ou se tem
alguma ligação com o acusado. A pessoa tem
que se identificar. O advogado de defesa tem que ter conhecimento
de quem está depondo para exercer a defesa do acusado,
explicou Sebastian, o que explica o fato de Patrícia e
Ângela terem seus nomes revelados e amplamente divulgados
pela mídia esta semana, durante o julgamento.
Outro
ponto que foi colocado por ele é que o artigo 217 garante
que, caso a testemunha se sinta constrangida ou o juiz perceba
que a presença do réu vai influir no ânimo
das testemunhas, ela não é obrigada a ser interrogada
na frente dele. Mas o defensor tem que estar presente e
tem o direito de inquirir.
Há
muitos contratempos para quem aceita participar de um processo
criminal como testemunha. O primeiro, é o risco que está
assumindo. O segundo, é ela estar disposta a responder
tudo o que foi questionado, o que faz, muitas vezes, que sua própria
vida (e privacidade) venha a público. Outro ponto é
que ela não pode recusar-se a responder. O calar
sobre a verdade, conforme explicou Sebastian, também
é considerado pelo Código Penal de crime de falso
testemunho.
Com
o Provita, isto vem se tornando algo suportável,
apesar dos rigores. E dezenas de pessoas que estavam condenadas
a morrer, passaram a ter uma chance de se manter vivas. Elas
vão falar do passado, não do presente nem do futuro,
disse o conselheiro do programa, Yulo Oitica.
Serviço
Mais informações sobre o Provita:
Ministério Público - 324-6400
Associação
de Advogados de Trabalhadores Rurais no Estado da Bahia - 329-7393
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