Associação de Advogados
de Trabalhadores Rurais
no Estado da Bahia

[A Tarde - Religião - 12/01/2003]

Pais-de-santo processam evangélicos

 

EM NOME DE DEUS - Terreiros reagem aos ataques dos pastores e entram na Justiça

Adilson Fonsêca

Maria Macedo foi taxativa: fez um “trabalho” (ebó) para uma pessoa e ela veio a morrer 24 horas depois. “Esse trabalho foi feito em uma encruzilhada, onde arriamos, à meia-noite, com galo e boi”. Maria apresentou-se como ex-mãe-de-encosto, que teria abandonado os rituais de magia há 23 anos, período em que comandava uma das “casas de encosto” em Salvador, e fez a declaração no programa Ponto de Luz, exibido diariamente às 13 horas, na TV Itapoan, Rede Record, em Salvador, no último dia 9.

O programa é da Igreja Universal do Reino de Deus na Bahia, comandado pelo bispo Sérgio Correa. Maria Macedo faz parte do elenco de vários personagens que se apresentam nos programas, que se dizem convertidos à igreja e que antes tinham alguma ligação ou participavam de rituais de magia, feitiçaria e bruxaria das “casas de encosto”. O termo “encosto” é utilizado pelos bispos e pastores da Igreja Universal do Reino de Deus para designar os locais e as entidades espirituais ligadas ao sincretismo afro.

Cansados de ser atacados diariamente nos programas de televisão (TV Itapoan, TV Cabrália) os pais-de-santo (babalorixás) reagiram e vão entrar com ação judicial no Ministério Público – onde já existem outros quatro processos dessa natureza – contra a Igreja Universal na Bahia. Os pais-de-santo exigem direito de resposta nos programas e cobram, da Justiça, uma punição contra o que consideram uma violação à Constituição Federal, que permite a liberdade de cultos religiosos no Brasil. A ação está a cargo do advogado Carlos Marighella e conta com o apoio do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (Ceao) e da Federação Nacional do Culto Afro-Brasileiro.

Discriminação

Na última sexta-feira, o promotor de Justiça e Cidadania do Ministério Público na Bahia, Lidivaldo Brito, encaminhou ofício à Rede Record em Salvador, solicitando as fitas dos programas da Igreja Universal do Reino de Deus, exibidos este ano na TV Itapoan, em Salvador. Essas gravações irão compor a peça do inquérito que vai apurar a prática, ou não, de racismo e discriminação religiosa, feitas pelos integrantes da igreja contra os adeptos do sincretismo religioso na Bahia.

Além dos quatro processos encaminhados à Justiça pelo promotor Lidivaldo Brito, um outro processo tramita na Justiça, contra o jornal Folha Universal, editado pela Igreja Universal do Reino de Deus. O processo foi movido pelo Terreiro Axé Abassá de Ogum, localizado na Rua Luiz Viana Filho, Nova Brasília de Itapuã, em Salvador, contra integrantes da Igreja Universal do Reino de Deus, que invadiram o terreiro e tiraram fotos dos rituais. As fotos, posteriormente, foram publicadas no jornal, com referências a rituais macabros e de feitiçaria.

O promotor alerta para os riscos de confrontos, que já começam a ocorrer de forma isolada, mas podem assumir proporções maiores. Foi o caso da comerciante de produtos de umbanda Antônia da Guia Santos Natividade, dona da loja Taw tal Amin, localizada na Avenida Dorival Caymi, 149, em Itapuã, que também entrou com ação na Justiça, se dizendo vítima de coação por parte de integrantes da Igreja Universal. Estão sendo processados, ainda, o pastor Átila Brandão, da Igreja Batista Caminho das Árvores, e o pastor Jurandir Miguel Martins dos Santos, da Igreja Batista Lírio do Vale.


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