EM
NOME DE DEUS - Terreiros reagem aos ataques dos pastores e entram
na Justiça
Adilson Fonsêca
Maria
Macedo foi taxativa: fez um trabalho (ebó)
para uma pessoa e ela veio a morrer 24 horas depois. Esse
trabalho foi feito em uma encruzilhada, onde arriamos, à
meia-noite, com galo e boi. Maria apresentou-se como ex-mãe-de-encosto,
que teria abandonado os rituais de magia há 23 anos, período
em que comandava uma das casas de encosto em Salvador,
e fez a declaração no programa Ponto de Luz, exibido
diariamente às 13 horas, na TV Itapoan, Rede Record, em
Salvador, no último dia 9.
O
programa é da Igreja Universal do Reino de Deus na Bahia,
comandado pelo bispo Sérgio Correa. Maria Macedo faz parte
do elenco de vários personagens que se apresentam nos programas,
que se dizem convertidos à igreja e que antes tinham alguma
ligação ou participavam de rituais de magia, feitiçaria
e bruxaria das casas de encosto. O termo encosto
é utilizado pelos bispos e pastores da Igreja Universal
do Reino de Deus para designar os locais e as entidades espirituais
ligadas ao sincretismo afro.
Cansados
de ser atacados diariamente nos programas de televisão
(TV Itapoan, TV Cabrália) os pais-de-santo (babalorixás)
reagiram e vão entrar com ação judicial no
Ministério Público onde já existem
outros quatro processos dessa natureza contra a Igreja
Universal na Bahia. Os pais-de-santo exigem direito de resposta
nos programas e cobram, da Justiça, uma punição
contra o que consideram uma violação à Constituição
Federal, que permite a liberdade de cultos religiosos no Brasil.
A ação está a cargo do advogado Carlos Marighella
e conta com o apoio do Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade
Federal da Bahia (Ceao) e da Federação Nacional
do Culto Afro-Brasileiro.
Discriminação
Na
última sexta-feira, o promotor de Justiça e Cidadania
do Ministério Público na Bahia, Lidivaldo Brito,
encaminhou ofício à Rede Record em Salvador, solicitando
as fitas dos programas da Igreja Universal do Reino de Deus, exibidos
este ano na TV Itapoan, em Salvador. Essas gravações
irão compor a peça do inquérito que vai apurar
a prática, ou não, de racismo e discriminação
religiosa, feitas pelos integrantes da igreja contra os adeptos
do sincretismo religioso na Bahia.
Além
dos quatro processos encaminhados à Justiça pelo
promotor Lidivaldo Brito, um outro processo tramita na Justiça,
contra o jornal Folha Universal, editado pela Igreja Universal
do Reino de Deus. O processo foi movido pelo Terreiro Axé
Abassá de Ogum, localizado na Rua Luiz Viana Filho, Nova
Brasília de Itapuã, em Salvador, contra integrantes
da Igreja Universal do Reino de Deus, que invadiram o terreiro
e tiraram fotos dos rituais. As fotos, posteriormente, foram publicadas
no jornal, com referências a rituais macabros e de feitiçaria.
O
promotor alerta para os riscos de confrontos, que já começam
a ocorrer de forma isolada, mas podem assumir proporções
maiores. Foi o caso da comerciante de produtos de umbanda Antônia
da Guia Santos Natividade, dona da loja Taw tal Amin, localizada
na Avenida Dorival Caymi, 149, em Itapuã, que também
entrou com ação na Justiça, se dizendo vítima
de coação por parte de integrantes da Igreja Universal.
Estão sendo processados, ainda, o pastor Átila Brandão,
da Igreja Batista Caminho das Árvores, e o pastor Jurandir
Miguel Martins dos Santos, da Igreja Batista Lírio do Vale.
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